Encarte: Moscou-Leningrado

A ascensão de Mikhail Gorbachev ao poder em 1985 deu um susto no mundo. Caíam as barreiras dogmáticas do stalinismo, um furacão de liberdade começava a varrer a União Soviética. Pipocaram problemas e contradições, mas os soviéticos também viram renascer a cultura, escancarando as portas para a arte dos quadrantes do planeta.

A linguagem universal do rock não ficou de fora. Pintaram várias tournées de artistas ocidentais, festivais e muita agitação. Essa efervescência toda aguçou a curiosidade dos soviéticos e, graças a glasnot, estamos às vésperas do embarque para a URSS, dia 29 de setembro, dos Engenheiros do Hawaii, a primeira banda brasileira de rock a fazer um tour pela terra da Perestróica. Serão 10 concertos, cinco em Moscou e cinco em Leningrado.

Os soviéticos ouviram os discos, gostaram e aqui vamos nós, exportar o rock para o Kremlin. Baixar no centro de poder de uma superpotência pode parecer um desafio para uma banda que há quatro anos cantava que vivia longe demais das capitais. DE PORTO ALEGRE PARA O MUNDO! Huumm… é um desafio, mas os engenheiros estão tranqüilos e confessam que têm todas as expectativas. E nenhuma, em particular.

Para diminuir a barreira do idioma, eles mandaram traduzir para o russo três letras que pregam suas idéias: Terra de Gigantes, Infinita Highway e Revolta dos Dândis. A distribuição será panfletária, o canto vai em português mesmo. Algumas aulas de russo vão garantir a comunicação mínima com a juventude soviética e seja o que Lênin quiser. Os shows na URSS fecham a tampa de Variações Sobre a Mesma Tour 89, que varreu o Brasil de janeiro a setembro com 84 shows, e, ao mesmo tempo, marcam o lançamento do primeiro LP ao vivo dos Engenheiros, batizado de Alívio Imediato, com lançamento previsto para o final de outubro.

Humberto Gessinger (voz, baixo, letras e músicas) define a diferença entre tocar no Brasil e tocar na URSS:

“No Brasil, a cabeça das pessoas que vão nos ver está direcionada pelo rádio. Em Moscou, vamos ter um espelho claro na nossa frente, sem qualquer idéia pré-concebida e acho que só lá a gente vai se conhecer. É quase um esperanto, só a música vai comunicar a mensagem”.

Em Moscou, os concertos serão na Casa Central do Turista, localizada no campus da Universidade de Moscou, com a especialíssima participação da banda local Zmilliannii.

A Casa do Turista é o point da galera, o local onde a juventude passou a se reunir desde a eclosão da glasnost, um ponto de concentração das novidades, uma muvuca, uma espécie de Baixo Moscou. Em Leningrado, segunda cidade da URSS e antiga São Petersburgo, capital do Império Russo e berço da Revolução de 1917, os Engenheiros serão hóspedes da prefeitura e tocarão num teatro de 1.200 lugares.

Humberto uma vez comentou que o show dos Engenheiros não pode dar errado porque é direto e simples. Carlos Maltz (couros) definiu a tournée dos Engenheiros como “leve, de guerrilha, um exército com maior mobilidade”. Augusto Licks (guitarra e teclados) não falou nada. Essa postura mostra que os Engenheiros estão prontos para tudo, incluindo a curiosidade dos jovens soviéticos, ansiosos por novidades. Não perdem por esperar.

Coda: “Não pode haver cumplicidade, tem que haver contradição”. (Humberto). Pois é.

Jamari França

Dept. Imprensa – BMG / Ariola Discos Ltda

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