Apresentação

Se hoje, com toda a humildade que é bastante peculiar a um leonino do terceiro decanato, me considero uma espécie de Shah Jahan da engenharia hawaiana devido ao valor incomensurável dos bootlegs, impressos, mídias oficiais, promos, todas as naturezas de memorabilia e outros tesouros acumulados em meu Taj Mahal sobre uma certa banda de rock oitentista, se me orgulho também de ter ido a incontáveis apresentações entre shows, festivais, gravações de programas de rádio e auditório e mais recentemente sessões de autógrafos. Se alardeio aos 4 ventos pelos 5 sentidos que já dormi em rodoviária e acordei com entorse na coluna, que já me perdi e me encontrei em estradas desertas, verdadeiras infinitas highways de outras cidades de outros Estados dos mais diferentes tipos de Brasil e que sou fã de fé há mais de 20 anos, houve um período que compreende praticamente toda a década de 1990, que minha condição era bem modesta, mas repleta de boas histórias pra contar sobre minha banda preferida. 

Não que eu precise ou queira desmistificar minha condição de fã ou me defender de não ter sido desde sempre um fã incondicional, mas preciso dar este depoimento: ao contrário do que muitos dos meus amigos imaginam e muitos dos que venham a ler esta peça introdutória deste pretenso experimento literário e já me conheçam de outros carnavais possam pensar, a primeira apresentação ao vivo que vi dos Engenheiros do Hawaii não foi com a escalação Humberto Gessinger no contra-baixo, Augusto Licks na guitarra e Carlos Maltz na bateria, vulgo GLM como gostamos de dizer nós os pseudograduados em Engenharia Hawaiana, mas embora eu não tenha tido a sorte de vê-los ao vivo, até minha sexagenária mãe sabe que esta é indubitavelmente a minha formação preferida, fato que personifica em mim os versos de um roqueiro candango que alardeava a saudade de tudo que não viu e talvez neste fato esteja a magia do amor às causas perdidas.

Ok, essa é a parte em que a gente baixa a bola do narrador, ou seja, eu mesmo, e adverte que não há nada de extraordinário, original ou curioso nisso, há inúmeros casos parecidos por aí. Amantes do cinema e da literatura na maioria das vezes não foram contemporâneos de seus ídolos. O filme da minha vida foi produzido anos antes de eu nascer e o livro escrito há mais de um século. Se falarmos de música, grande parcela dos beatlemaníacos não eram sequer nascidos durante o auge da banda e o mesmo podemos dizer de Raul Seixas para ficar em um exemplo local. Mesmo entre os fãs dos Engenheiros do Hawaii há casos semelhantes ao meu, então vou me recolher a minha insignificância e dar prosseguimento a história que desejo contar.

Os Engenheiros do Hawaii tiveram sua primeira apresentação pública em 11 de janeiro de 1985, no exato dia da abertura da primeira edição do Festival Rock in Rio em que o tremendão Erasmo Carlos levou uma das vaias mais famosas da história da MPB, há pouco mais de 31 anos. Enquanto Queen, Iron Maiden, Whitsnake entre outros se apresentavam no Maracanã para uma plateia estimada em 470 mil pessoas, no auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, Humberto Gessinger, Carlos Stein, Carlos Maltz e Marcelo Pitz também faziam história e se apresentavam quase performaticamente para os amigos em um evento que visava minimizar os danos à vida acadêmica causados pela greve do ano anterior e carregavam a gaiatice utópica de serem maiores que o Rock in Rio. Aos 7 anos de idade, alheio a tudo isto, eu provavelmente estava comportadamente sentado no sofá vidrado na programação infantil da TV aberta e focado no grande projeto da minha infância: ganhar uma bicicleta no programa do Bozo.

Minha paixão pelos Engenheiros do Hawaii é posterior aos eventos que orbitaram o início da banda. Surgiu com o lançamento do LP O Papa é Pop, pelo menos cinco anos após a estreia oficial da banda, e com o estrondoso sucesso alcançado pela canção Era um garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones, mas isso eu devo contar numa outra oportunidade, por enquanto vamos falar de 1999, o ano que julgo ter sido o primeiro dessa minha fase fã de fé, fã incondicional, verdadeiro enghaw, enfim, essas bobagens que dizem por aí para designar malucos como eu.

Para situá-los no calendário da engenharia havaiana, em 1999, Eu que não amo você, uma canção tensa que fala de saudade, despedida, tem um solo de guitarra primoroso e foi o carro chefe do álbum ¡Tchau Radar! batia cartão nas paradas de sucesso e, por algum motivo que de tão banal nem consigo lembrar, eu me identificava demais com a letra, que se tornou a catapulta para que eu aterrizasse na plateia do Bem Brasil, um programa dominical produzido pela TV Cultura, para assistir, pela primeira vez, uma apresentação ao vivo da minha banda preferida cerca de cinco anos após o término da formação GLM.

Antes de concluir este relato, eu gostaria de falar um pouco sobre a canção Eu que não amo você e o que ela representou para mim enquanto fio condutor de significativas descobertas que mudou completamente a minha vida e influenciou em fatos marcantes e escolhas decisivas que me levaram aonde estou hoje, mas antes ainda prefiro falar de Refrão de Bolero, a música-tema da minha relação com Luciana, só espero não perdermos o fio da meada nessa sucessão de amarrações.

A afinidade e identificação que eu acreditava ter com os Engenheiros do Hawaii me levaram a adquirir meu primeiro e único violão, um Di Giorgio estudante zero km que possuo até hoje e que fora comprado numa loja da lendária e legendária Rua Santa Ifigênia e pago com 4 cheques pré-datados do Bilbao Viscaya, o banco da moda entre os corintianos no final dos anos 1990, mas deixamos de lado também as paixões futebolísticas e nos concentremos na música.

Pagando de gatão com o instrumento a tira colo, vivia flertando com as garotas do Jardim Ponte Alta, bairro da periferia considerado uma das 7 maravilhas de Guarulhos onde morei dos 17 aos 27 anos. Para uma delas, Luciana, que de tão ingênua acreditava em príncipe encantado e meteorologia e possuía um gosto musical totalmente influenciado pelas rádios mais populares e que jamais ouvira falar em Engenheiros do Hawaii, eu dediquei uma canção que havia composto em sua homenagem.

A canção era Refrão de Bolero, uma das poucas da minha banda preferida suficientemente fáceis de tocar e que eu era capaz de reproduzir ao violão mesmo com minha deficiente coordenação motora. No momento de cantar o refrão eu trocava Ana por Luci-Ana e durante os meses que ficamos juntos todas as vezes que ela pediu pra eu tocar a canção a sós ou em público, eu sempre atendia com deslavada cara de pau, até que a verdade sobre a real autoria da canção veio à tona e nossa história, fundamentada na solidez das minhas banalidades, findou abreviada, entre outros fatores, pela percepção de meu par de que não tinha vocação para musa de uma fraude, fato suficientemente marcante também para ratificar a minha condição de completo imbecil e agora sim podemos falar de Eu que não amo você; o que veio à seguir foi um dos momentos mais estapafúrdios da minha existência nesta vida e provavelmente em todos os universos paralelos.

Eu que adoro viver, depois que fui abandonado, flertei com o suicídio, mas fora um flerte teatral, uma necessidade canastrona de sentir. Eu que não fumo, pedi um cigarro, tudo para repetir o gesto e tentar reproduzir a angustia, experimentar a mesma emoção, ir ao encontro da canção Eu que não amo você, que não parava de tocar nas rádios e que de certa forma remetia ao fim de minha história com Luci-Ana.

Felizmente minha condição de fumante durou pouco. No terceiro maço de Carlton Box, o embuste emocional que eu criei teve fim. Iluminado por um instante de lucidez, percebi na vontade de fumar a dependência da nicotina e decidi parar antes que o vício prevalecesse. Mesmo que a morte pela ingestão exagerada do fumo seja um projeto à longo prazo, sou o suicida mais bunda mole que existe.

De qualquer forma, meio que desvirtuando Fernando Pessoa, o poeta fingidor Humberto Gessinger nada sabia da minha vida vazia de emoções, mas na letra da canção Eu que não amo você tudo dizia da dor de cotovelo que existia em mim. De tanto ouvir, sofrer e ouvir de novo, como num insigth, o belíssimo solo de guitarra do Luciano Granja resumiu, na minha frágil maquininha de pensar besteira e isenta de interesses poéticos, o conceito de todo o álbum e me libertou das amarras e armadilhas da minha própria personalidade. Foi como se em uma fração de segundo antes do último acorde, uma voz de adolescente quando acorda dissesse “Pra ser sincero, prazer em vê-la, até mais” ou, caso prefiram, “Tchau Radar”.

Voltando agora à aventura de minha primeira vez num show dos Engenheiros do Hawaii, foi contaminado pela personificação de Eu que não amo você em mim, que chamei meu inseparável amigo Juciel Leandro, o Léo, para ir comigo ao SESC Interlagos e logo na chegada, quando vimos o pequeno Adal Fonseca na passagem de som exibindo toda a sua técnica e vigor, me perguntei onde estaria Carlos Maltz, o baterista cabeludo sentado no sofá vermelho d’O Papa é Pop, mas ele já não estava há quase quatro anos e eu que me julgava fã número 1 nem havia percebido sua saída. Provavelmente meu desapego com a manutenção de integrantes tenha sido herança da decepção que senti quando, mais de um ano após seu desligamento, me deparei com a noticia de que Augusto Licks não fazia mais parte da banda. Um adendo: não se assustem com esses intervalos espaçados de tempo para que eu recebesse as noticias das trocas de integrantes, estamos falando de tempos anteriores aos avanços tecnológicos que nos proporcionam a recepção da noticia praticamente em tempo real ao acontecimento.

A apresentação foi um choque, sem forçação de barra alguma, fui verdadeiramente arrebatado pela levada de Ninguém = Ninguém, pela visível empolgação de Humberto Gessinger em Muros & Grades, pela letra de Piano Bar, a qual me era familiar apenas o refrão, pela identificação com a letra e o que me dizia as entrelinhas de Eu que não amo você e pelo intimismo de 3 x 4, que me impressionara sobremaneira e a qual tive o prazer e a honra de anos mais tarde cantar com Humberto Gessinger em uma gincana que reunia fanáticos pela banda.

Esse período coincide com uma ligeira admiração que nutri por Caetano Veloso e a versão engenheira de Negro Amor também foi muito bem vinda. Fato interessante é que o grande sucesso dos Engenheiros do Hawaii, a canção que me apresentou ao rock nacional e a qual guardo como plano de fundo para uma interessante história que pretendo contar um dia, o clássico Era um garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones passou despercebido.

O Léo, um dos meus grandes amigos desta vida e provavelmente de outras já passadas, que presenciou minha perturbação, mas não se deixou arrebatar, havia gravado a reprise do programa e nunca na história lá de casa uma fita VHS rodou tanto no videocassete. Na mesma semana comprei o CD ¡Tchau Radar! e passei os dias, semanas, meses e lá se vão quase duas décadas gastando muito energia com essa banda.

xXx

À seguir, uma tentativa de relacionar as apresentações em que estive:

11/07/99 – Gravação Bem Brasil, SESC Interlagos, São Paulo, SP;

__/__/00 – Gravação Bem Brasil, SESC Interlagos, São Paulo, SP;

11/06/00 – SESC Itaquera, São Paulo, SP (Abertura: Rumbora);

__/__/00 – Aniversário da MIX FM, CERET Tatuapé, São Paulo, SP;

06/10/00 – Festa das Flores, Barbacena, MG;

06/10/00 – Festa das Flores, Barbacena, MG;

20/10/00 – Belo Horizonte, MG;

19/10/2000 – Serraria Souza Pinto, Belo Horizonte, MG (A foto foi tirada no dia seguinte);

14/04/01 – SESC Itaquera, São Paulo, SP (Abertura: Wilson Sideral);

29/07/01 – Gravação Bem Brasil, SESC Interlagos, São Paulo, SP;

__/__/02 – Segundo Encontro Nacional de Fãs, Porto Feliz, SP (Com Carlos Maltz);

15/06/03 – SESC Itaquera, São Paulo, SP (Abertura: Gabriel, o Pensador);

16/12/03 – Maresias, SP (Gravação Luau MTV);

16/12/03 – Maresias, SP (Gravação Luau MTV);

24/07/04 – Lapa Multishow, Belo Horizonte, MG (Aquecimento Acústico MTV);

24/07/04 – Lapa Multishow, Belo Horizonte, MG (Aquecimento Acústico MTV);

18/08/04 – 1º Dia de gravação do Acústico MTV, Espaço Locall, São Paulo, SP;

18/08/04 – Espaço Locall, São Paulo, SP (1º Dia de Gravação do Acústico MTV);

19/08/04 – Espaço Locall, São Paulo, SP (2º Dia de gravação do Acústico MTV);

20/08/04 – Teatro Ribalta, São Paulo, SP (Pocket Show com Carlos Maltz);

20/08/04 – Teatro Ribalta, São Paulo, SP (Pocket Show com Carlos Maltz);

__/01/05 – Estúdio MOSH, São Paulo, SP (Gravação Atendendo à Pedidos);

__/01/05 – Estúdio MOSH, São Paulo, SP (Gravação Atendendo à Pedidos);

17/03/05 – Gravação Fanático MTV, Perdizes, São Paulo, SP;

17/03/05 – Gravação Fanático MTV, Perdizes, São Paulo, SP;

19/03/05 – Citibank Music Hall, São Paulo, SP;

19/03/05 – Citibank Music Hall, São Paulo, SP;

__/05/05 – Cataguases, MG (Via Muriaé);

__/05/05 – Cataguases, MG (Via Muriaé);

12/06/05 – Piracicaba, SP;

12/06/05 – Piracicaba, SP;

14/06/05 – FNAC, São Paulo, SP (Pocket Show);

14/06/05 – FNAC, São Paulo, SP (Pocket Show);

20/08/05 – CIE Music Hall, São Paulo, SP;

20/08/05 – CIE Music Hall, São Paulo, SP;

25/11/05 – Kazebre Rock Bar, São Paulo, SP;

25/11/05 – Kazebre Rock Bar, São Paulo, SP;

10/06/06 – Vitória, ES;

10/06/06 – Vitória, ES;

31/05/07 – Citibank Hall, São Paulo, SP (2º dia gravação CD/DVD Novos Horizontes);

31/05/07 – Citibank Hall, São Paulo, SP
(2º dia gravação CD/DVD Novos Horizontes);

07/09/07 – Canecão, Rio de Janeiro, RJ;

06/10/07 – Todas as Noites de Todos os Dias,
Teatro Maria Clara Machado, Rio de Janeiro, RJ
(Peça Teatral com produção musical de Augusto Licks)

03/05/08 – Canecão, Rio de Janeiro, RJ;

04/05/08 – Canecão, Rio de Janeiro, RJ;

04/05/08 – Canecão, Rio de Janeiro, RJ;

25/09/10 – Aniversário FC EngRio, Lapa, Rio de Janeiro, RJ;

25/09/10 – Rio de Janeiro, RJ (Aniversário FC EngRio);

__/__/10 – Lançamento Abilolado Mundo Novo, Lapa, Rio de Janeiro, RJ;

08/12/10 – Espaço Multifoco, Rio de Janeiro, RJ (Lançamento Abilolado Mundo Novo)

28/03/11 – Sessão de Autógrafos Saraiva, Shopping Rio Sul, Rio de Janeiro, RJ;

28/03/11 – Saraiva do Shopping Rio Sul, Rio de Janeiro, RJ Sessão de Autógrafos);

30/03/11 – Pocket Show Livraria Cultura, São Paulo, SP;

30/03/11 – Livraria Cultura, São Paulo, SP (Pocket Show + Sessão de Autógrafos);

03/04/11 – São Paulo, SP (Gravação Altas Horas);

03/04/11 – São Paulo, SP (Gravação Altas Horas);

03/06/11 – Circo Voador, Rio de Janeiro, RJ;

03/06/11 – Circo Voador, Rio de Janeiro, RJ;

19/07/12 – Sessão de Autógrafos Saraiva, Shopping Rio Sul, Rio de Janeiro, RJ;

19/07/12 – Saraiva do Shopping Rio Sul, Rio de Janeiro, RJ (Sessão de Autógrafos);

03/08/13 – Atlanta Music Hall, Goiânia, GO;

03/08/13 – Atlanta Music Hall, Goiânia, GO;

29/04/14 – Sessão de Autógrafos Saraiva, Shopping Rio Sul, Rio de Janeiro, RJ;

29/04/14 – Saraiva do Shopping Rio Sul, Rio de Janeiro, RJ (Sessão de Autógrafos);

01/05/14 – Vivo Rio, Rio de Janeiro, RJ;

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12/12/14 – Teatro Net, Rio de Janeiro, RJ (Gravação Invasão da Cidade / Isadora com 40 dias de nascida);

Abaixo, alguns dos meus encontros com Augusto Licks:

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