O contranababesco Longe demais das capitais

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Cá estou novamente revisitando os momentos iniciais da nossa banda preferida, a pré-história de tudo que estava para acontecer, aquele período entre a apresentação no auditório da Faculdade de Arquitetura e a saída mal explicada de Marcelo Pitz, o lapso temporal que antecedeu a chegada de Augusto Licks aos Engenheiros do Hawaii trazendo consigo, além do enorme talento, a atenção a uma técnica mais apurada, que, associada às composições de Humberto Gessinger e ao entusiasmo de Carlos Maltz, culminou em um dos mais importantes capítulos do rock nacional.

Inicialmente concebido como o primeiro LP solo após a bem sucedida participação na coletânea Rock Grande do Sul, produzida alguns meses antes, o Longe demais das capitais era conceitualmente forte dentro de uma estética que primava por um mau gosto proposital intrínseco ao discurso de negação da influência do showbuziness e de movimentos culturais populares entre os jovens das periferias nos anos 1980, embora a gênese da Engenharia Hawaiana esteja na autonomia da atitude reverberada pelo “Do It Yourself”, o grito do Movimento Punk.

Por outro lado, sem querer refutar o propósito artístico ou o despropósito comportamental do trio que o concebeu, mesmo autoral em sua totalidade, com boas letras e belos achados poéticos, é notoriamente improvável, olhando com um oportuno delay de mais de trinta anos, que Humberto Gessinger, Carlos Maltz e Marcelo Pitz tivessem chegado com uma sonoridade definida ao LP que inaugura a discografia oficial de sua banda. Um dos releases até cravou um “ska existencialista”, o que denotava certa semelhança com os contemporâneos do Paralamas do Sucesso, esses sim, skazistas convictos, mas revelava também o estranhamento frente a combinação de letras potencialmente intimistas entranhadas em um estilo musical historicamente festivo.

Falando um pouco da produção quase precária do LP, objeto de minhas não menos deficientes elucubrações, e, sem chover no molhado, haja vista que trata-se de situações já bastante conhecidas, discutidas e debatidas na comunidade roqueira, a Radio Corporation of America, conhecida por aqui como RCA, por não entender ou por não acreditar, teria dado carta branca aos impetuosos garotos do sul. O resultado pode ter sido um choque para os “entendedores de música”, mas, com uma sonoridade obtusa e um amadorismo latente equilibrado por uma densa leva de letras com apelos que iam ao encontro de uma demanda deveras receptiva de ouvintes ávidos em assimilar o que se dizia longe demais das capitais, os Engenheiros do Hawaii estouraram nacionalmente e conquistaram o primeiro disco de ouro do rock gaúcho, fato que inexplicavelmente não se repetiu com o trabalho seguinte, o igualmente contranababesco, no entanto muito melhor articulado, A revolta dos dândis.

Para finalizar, perdoem-me se pareço oportunista, prolixo ou se me faço parecer analítico demais ao trazer à tona uma visão pretensamente singular de fatos tão elementares dentro da trajetória de Humberto Gessinger & Cia. Nada apresento de novo ou revolucionário que vá descortinar uma nova ordem enghaw, apenas insisto com a percepção, comum a maioria dos meus contemporâneos, que também já gastaram muita energia com esta banda, de que os Engenheiros do Hawaii não tinham a mínima ideia do que estavam produzindo musicalmente até a providencial saída de Marcelo Pitz, mas encontraram um norte com a bem aventurada entrada de Augusto Licks, mas isso já é assunto para uma outra ocasião.

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Sobre Davi Enghaw

"Sou um simples operário, escravo de ponto e horário, sou caxias voluntário de rendimento precário, nível de vida sumário, para não dizer primário, e cerzido vestuário." (Carlos Drummond de Andrade)
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